terça-feira, 1 de junho de 2010

Sorrisos

Juro que já estou parando com os textos deprimentes sobre solidão! xP

 

  Sentada em frente a um antigo álbum com fotos amarelas, ela chorava copiosamente. Mas quem seria tal figura? Apenas a persona solidão, incorporada no corpo de alguém que um dia não fora apenas aquela sombra humanóide. Sim, humanóide, não há como chamar de figura humana algo que já há tempos esqueceu de suas funções humanas básicas e, por sua esquelética e deprimente forma, esquecera inclusive de comer e beber.

Não mais importava, comer, beber, sorrir e sonhar. Apenas se alimentava de nostalgia, se embebedava com a própria tristeza, apenas sorria através de memórias e apenas sonhava em mudar o passado que, agora, se quedava triste.

Olhava uma foto de sorrisos, dois lindos e únicos sorrisos que nunca seriam repetidos já que o futuro fez tanta questão de maltratá-los. Olhava uma foto de brincadeiras, as mais felizes memórias transformadas em simples alusões a tempos bons, tempos que se faziam bons pela companhia de outra alma solitária.

Almas solitárias rodeadas de pessoas que não as entendia, mas um dia puderam se entender, pena que não conseguiram entender que seu fim seria voltar ao estado de solidão. Mal sabiam que tudo o que é bom dura pouco, acaba cedo e se compensa tornando os momentos futuros imensamente piores do que os anteriores que pareciam tão felizes.

Quanto a figura, ainda chorava, mas dessa vez com os olhos cerrados e um quase-sorriso estampado em seu rosto cansado, no qual quase podiam ser vistos caminhos que as lágrimas anteriores percorriam. Talvez o sorriso representasse uma esperança, uma esperança tão profunda que talvez aquela humanóide nem se desse conta, apenas esperava religiosamente o dia em que seu sorriso verdadeiro voltaria, em terra ou não.

Esqueci-me de dizer que estava a observar aquela figura há dias, apenas na janela de sua casa, vendo-a por vários dias com o mesmo álbum que ia e voltava às duas mesmas páginas. Devo que confessar que minha curiosidade já aumentava, mas devia esperar minha hora, deveria esperar até poder revelar-me e tirar de uma vez por todas aquelas lágrimas de um rosto ainda tão jovem.

Na verdade, não sabia o porquê de suas lágrimas, apenas supunha seus sofrimentos. Talvez irmão, amigo, pais, talvez alguma dessas almas tenha trazido até aquela figura tanto sofrimento. Sinceramente, duvidava disso tudo, nada pode trazer tanto sofrimento há uma alma ainda tão jovem, ainda que seu rosto fizesse transparecer um sofrimento que parecia durar uma eternidade. A figura não comia há dias, não saía dali, não falava, apenas olhava as fotos e chorava, parava de chorar por algum tempo e logo voltava a seu ritual de ir e voltar por duas fotos que a fazia chorar, dormia tarde da noite naquele sofá aonde sempre ficava, quando já estava tão cansada que mal podia piscar e acordava com os raios de sol em seu rosto deprimente.

Um dia porém, o ritual teve algumas mudanças. Acordou e, depois de um tempo começou a chorar, mas era diferente, berrava entre as lágrimas, gritava monossílabos indecifráveis e fazia lágrimas encharcarem as páginas do álbum. Então, começara a bravejar sobre toda a sua tristeza, sobre a injustiça que lhe fora feita, estava claro que a figura não suportava mais aquele sofrimento, era chegada então a minha hora.

Entrei pela porta da frente e fui de encontro à figura, não se assustou com a minha chegada como a maioria faz, mas sorriu docemente dentre as lágrimas ao olhar as asas negras que carregava pesadamente em minhas costas. Fiz questão de olhar a página aberta do álbum, era uma cena de um casamento, na qual os noivos sorriam espontaneamente mostrando a felicidade do momento, a noiva sobre as costas do noivo, fazendo inclusive os convidados rirem. Na segunda foto, em uma página anterior, havia uma foto de uma roda de amigos, na qual o mesmo casal da outra foto estava se abraçando, com um sorriso sincero ao lado das pessoas sorridentes. Aquela figura continuava com lágrimas em seu rosto, mas continuava sorrindo com minha presença.

Então aquela figura humanóide enxugou as suas lágrimas e se levantou olhando em meus olhos opacos de Anjo da Morte (como alguns me chamam aqui na Terra), apenas toquei em sua testa para acabar com todo aquele sofrimento e ela caiu levemente sobre o sofá, com os olhos cerrados, a pele fria e seu último sorriso sincero.


Um comentário:

  1. Congrats, baby ^^

    um ótimo texto, bem marcante e bem "seu", por assim dizer ^^''

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