domingo, 30 de maio de 2010

Pesadelo

Aqui vai meu primeiro post, espero que gostem

  

Tic tac, tic tac, tom... Tom... Tom.

O relógio marcou três horas da tarde, o horário no qual, todos os dias, cuidava de meu jardim, um jardim já velho e cansado, bem como sua dona. Levantei-me da poltrona aonde estava sentada, poltrona vinho e bege, já desbotada por conta dos anos, arrastei os chinelos ao longo daquele quarto escuro, abri a pesada porta de madeira e fui até o jardim. Peguei o regador azul e velho, como tudo naquela casa, preenchi-o com água e comecei a regar as rosas e margaridas que ali haviam. Tais flores eram desbotadas, pareciam cansadas de viver, de se banhar do sol, pareciam desejar o fim. Talvez sejam como eu, esperando o desfecho daquela casa, dos dias e das flores.

Voltei para a casa, que era um casebre grande feito de madeira, que hoje era escuro e rangia por inteiro com uma simples porta se abrindo. Uma casa que fora tão confortável, hoje tão escura e pesada, tão cansada, manchada, enrugada. Subi as escadas, a cada passo os degraus rangiam, contando a triste história que outrora era alegre. Sentei-me em minha cama, uma cama antiga, de lençois igualmente antigos, de um azul desbotado porém suave, não deixando de ser triste, olhei para o papel de parede, do qual nunca gostei realmente, um papel de parede amarelo e manchado, com padrões odiosos. Lembro-me ainda do que ele me disse, quando nos mudamos: “Não precisa mudar o papel de parede, até gosto que ele seja feio e que não nos agrade. Faz com que tudo a nossa volta pareça mais bonito e com que, ainda assim, nos lembremos que nem tudo pode ser bonito.”

Hoje o papel já não faz sentido, nem a casa, nem o jardim e nem eu. Como tudo ficou assim tão sombrio? Não sei dizer. A vida daqui se esvaiu junto com a dele, o cheiro das flores, a cor das paredes, o sol, o vento, a lua.

Levantei-me, abri um pouco as cortinas e a janela, sentei-me na cadeira que havia ao seu lado e passei a olhar para o horizonte. Não haviam outras casas ali, apenas montanhas e longas pradarias faziam companhia àquela velha e triste casa. Fiquei ali por muito tempo, sentindo a brisa que tocava meu rosto, olhando as sombras que o sol provocava, derramando lágrimas silenciosas do meu desespero. Agora que pensava bem, tinha certeza, a certeza de que vivia o meu tão temido pesadelo, aquilo que me tirava noites de sono e me perturbava o pensamento: solidão. Como ele ousara me deixar assim? Como ousara quebrar seus juramentos e me abandonar? Agora só me sobrou esta casa, que chora comigo e espera seu último suspiro comigo.

“Leve-me embora!”- bravejava enquanto as lágrimas percorriam meu rosto enrugado, já cansado de esperar pelo fim. Parei de bravejar, embora lágrimas pesadas ainda rolassem por meu rosto. Quando dei por mim, já eram quase dez da noite. Levantei-me então dali, não tinha fome, apenas sentia um cansaço repentino, um peso nas costas e na cabeça. Fui até o banheiro, lavei o rosto, enxuguei as lágrimas, arrumei-me para dormir e voltei até a cama. O peso que sentia piorou, mas o cansaço foi passando conforme cedia espaço para a força com a qual as pálpebras insistiam em fechar, não fechavam por conta do cansaço, todavia. Não sei exatamente porque insistiam em fechar-se, mas senti que deveria me entregar.

 Sorri. Depois de anos a fio com lágrimas em meu rosto, sorri. Sorri porque agora, tudo acabava, sorri porque a casa dava seu último suspiro. Então o relógio badalou, mas não marcava nenhum horário, badalava para me avisar que era hora, de acabar com o sofrimento da casa, era hora de suspirar com ela. E então o obedeci, suspirei, o peso sumiu, o sorriso permaneceu, pois agora o sofrimento acabara, já não me prendia ao meu pesadelo.


2 comentários:

  1. Um grande conto ^^
    Espero ler muitos outros aqui, e garanto que a qualidade sempre será boa ^^

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  2. Brumano, como assim!? Como que não tinha um blog pra mostrar isso pra gente?
    RUNF! Só num parto pra porrada pq te gosto xD

    Adorei ler isso ae, foi muito útil pro meu momento!

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